Rodrigo Garro
Ouvi seus passos ecoando à distância, como se estivessem bem próximos aos meus ouvidos. Eu sabia que era ela, sem sequer precisar vê-la.
Junqueira tinha o hábito curioso de reduzir os passos no corredor sempre que aprontava alguma bobagem. Eu conseguia ouvir seus movimentos hesitantes, indo e vindo, como se estivesse reunindo coragem para me encarar. E quando finalmente criava forças para abrir a porta, eu fingia não ter notado nada. Mas eu sempre notava.
Sem esperar que ela tomasse coragem para bater, abri a porta e caminhei na direção dela. Junqueira estava de costas, com os ombros ligeiramente tensos, como se estivesse decidindo entre ir embora ou seguir em frente.
Antes que tivesse tempo de reagir, quebrei o silêncio:
— Vai me dizer onde estava ou prefere continuar ai, andando feito maluca? — falei.
Ela sobressaltou-se, e seu corpo deu um leve tranco antes de se virar para mim. Os olhos arregalados entregavam o susto, e por um segundo, ela parecia procurar uma resposta convincente.
— Que susto, Rodrigo. — pos as mãos sob o peito coberto por um camisão, que se bem conheço era de Yuri? Filha da puta.
Apertei os olhos contra seu corpo, sentindo meu sangue estralar. Que filha da puta. Algo me dizia que ele havia sido o motivo do sumiço da minha funcionária, e agora sei que não estou tão errado.
Meia hora que passo fora de casa, e Alberto me passa para trás. Isso não me parece ser um jogo muito limpo. Pos bem, teria troco.
— Ainda não me respondeu, onde estava?
Marcela apertou os lábios, como se calculasse a resposta. Seus olhos, grandes e inquietos, passaram pelo meu rosto antes de deslizarem até a porta aberta atrás de mim.
— E desde quando eu te devo satisfações? — Sua voz saiu firme, mas o modo como cruzou os braços sobre o camisão denunciava que estava na defensiva.
Sorri de lado, balançando a cabeça.
— Ah, mas deve. — Inclinei o corpo para frente, reduzindo a distância entre nós. — Porque eu sou seu chefe, e você sumiu no meio do expediente.
— Eu precisei resolver algumas pendências familiares, não tive como avisar. Sastifeito?
Ela mentia tão mal, quanto fazia o seu trabalho com excelência. Por um momento achei que valeria a pena discutir, dizer que eu já sabia que ela estava com o Yuri e que essa camiseta velha ficava horrível nela.
Mas, tudo que fiz foi enfiar as mãos no bolso da bermuda que vestia, fingindo acreditar.
— Dessa vez passa. — falei cínico. — Mas na próxima vez, eu irei cobrar por isso... — me aproximei um pouco mais, ficando perto o suficiente para analisar com atenção a pintinha extremamente pequena que ela tinha em uma das bochechas, e longe o bastante para não ousar a tocar seus lábios. Embora isto, não parecer-se uma sentença. — E pelo o que me consta, você já me deve uma, gracinha. Lembra o episódio no treino?
Marcela sustentou meu olhar por um instante, a sua expressão era tão fechada, quanto a porta atrás de nós, mas o peito subia e descia mais rápido do que antes.
Eu sabia que minhas palavras a incomodavam. Sabia que, por dentro, ela estava fervendo, tentando decidir se me mandava para o inferno ou se engolia o orgulho e simplesmente sumia da minha frente.
E quer saber? Eu adorava essa confusão que provocava em sua cabeça.
— Ótimo. — Ela sorriu sarcástica, mas o calor nos olhos denunciava que estava me xingando mentalmente. — Então, já que está tudo resolvido, posso subir?
— não! — Retruquei firme.
— Não?
— Não! — voltei a afirmar, agora mais pilantra que antes. Sorrir de lado, como se a situação estivesse a meu favor. E estava. — Se troque, iremos sair.
— Iremos? Você não me falou que tínhamos nenhum compromisso hoje a noite, Rodrigo.
— Como não? Estou falando agora, Linda.
Sua expressão embotada, puxada para um vermelho que poderia ser confundido por qualquer um como vergonha, mas que eu sabia que era ódio, retratava toda a sua incredulidade diante da situação.
— Posso ao menos saber a onde vamos quase as 19h da noite?
— Você não é paga para fazer perguntas.
Ela espremeu os olhos e entreabriu a boca, aparentemente pronta para protestar, mas nada saiu da sua boca.
— Me apronto em meia hora. — disse entre os dentes, os rastejando um contra o outro.
— Te espero lá em baixo. Não demore.
A moça concordou contra a vontade e passou por mim, como se está fosse a sua sentença de morte.
Desci as escadas sem pressa, sentindo o som dos meus passos ecoar pelo piso de madeira enquanto um sorriso divertido brincava nos meus lábios. Nada me divertia mais do que irritá-la, vê-la contrariada, testando sua paciência até o limite. E o melhor de tudo? No final, ela sempre cedia.
As vezes questiono se ainda a mantenho no emprego por sua competência ou, pela sua falta de paciência que as vezes, soava até que... engraçado?
Joguei-me no sofá com facilidade, mas controlar a impaciência foi outra história. Peguei o celular, chequei algumas mensagens sem interesse, mudei de posição umas três vezes. Quando percebi que já tinham se passado quarenta minutos e não os trinta que ela prometeu, soltei um suspiro pesado.
— Marcela, se você demorar mais cinco minutos, eu subo e te arrasto desse quarto! — gritei, sabendo que minha voz alcançaria o andar de cima. — Banho e roupas não fazem milagres, só para constar. — A provoquei.
Silêncio. Nenhuma resposta, nenhum protesto indignado, nem sequer um "já estou indo" impaciente.
Sorri de canto. Ela estava fazendo de propósito.
Então, ouvi o som dos saltos tocando o chão.
Ergui os olhos, já pronto para alguma provocação, mas qualquer pensamento sumiu no instante em que a vi.
Marcela surgiu no topo da escada como uma maldita visão. Postura impecável, expressão orgulhosa e um olhar que desafiava qualquer um a encará-la por tempo demais. O vestido preto moldava seu corpo como se tivesse sido desenhado para ela, realçando cada curva. O decote não era exagerado, mas suficiente para atrair atenção, e a fenda na lateral exibia uma perna dourada e torneada que me fez morder o canto da boca.
Puta merda.
Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Cada degrau que ela descia a tornava ainda mais letal, e eu não conseguia desviar o olhar.
Quando finalmente parou na minha frente, arqueou uma sobrancelha, desafiadora.
— Está encarando por quê? Perdeu a língua?
Soltei uma risada nasal, sem pressa para responder. Em vez disso, levantei-me devagar, deixando meu olhar deslizar por ela de cima a baixo, absorvendo cada detalhe sem pressa. Então, inclinei-me levemente para perto do seu ouvido e murmurei, carregado de deboche:
— É a primeira vez que lhe vejo em uma situação menos piorzinha... tá melhorando sr. Carioca. — debochei, obviamente afim de lhe causar raiva.
Ela suspirou, entediada, cruzando os braços.
— Me visto a altura do meu salário. Se as minhas vestimentas não são grande coisa, o salário pouco menos. — devolveu a ironia, sorrindo falsa.
A língua afiada como sempre! Que cretina.
— Prefere a carta de demissão? – ergui as sobrancelhas.
Ela revirou os olhos e seguiu a frente, me ignorando. E eu a acompanhei logo atrás.
Estressadinha.
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Ele reconhecendo a camisa do Yuri kkkkkklkkkkkkkkkk
Amo que a linguagem de afeto ou desafeto do argentino é na base da humilhação...
E da Marcela também não é diferente, pelo menos com o garro.
Amo também o quão diferente é a relação da Marcela e Yuri // Marcela e Garro.
Agora imagina a ideia de sair de tarde com o Yuri e a noite com o garrito? A sorte que não temos hahahaha. Triste.
Até agora ces é team quem?
Garro X Yuri?👀
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